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Sou casada, tenho um filho, amo viver, adoro trabalhos manuais, música, filmes, antiguidades etc.

domingo, 3 de julho de 2011

O relógio da minha avó Isabel




Eu passei a entender melhor o tempo quando o relógio de corda da minha avó Isabel veio prá minha casa. Coloquei-o na parede, dei corda e fiquei na platéia.
No começo, ele funcionou muito bem. Suas badaladas me traziam de volta a infância, o cheiro de café, a toalha xadrez.
Depois, como eu não fizesse mais nada, apenas esperasse que ele agisse, ele passou a atrasar.
Arrastava os ponteiros e suas badaladas eram graves, como um pesar.
Eu dava mais corda e tudo se resolvia temporariamente.

Dias depois, ele já se mostrava mal-humorado e atrasado.

Eu não o entendia: o que mais ele queria de mim? Eu já o tinha em destaque na sala, de vez em quando dava-lhe corda, tirava-lhe o pó, exibia-o às visitas...
Esse senhor só poderia estar caduco. Com certeza os anos deviam cobrar sua parte justo agora, na minha casa...
E ele falhava. Depois de mais de um século de existência viera tombar em minha sala.
Marcara o tempo dos meus avós, ninara minha mãe e meus tios, intrigara-me na infância.
Era um tempo em que só minha avó dava-lhe corda. Eu, olhando-o lá no alto da parede, ficava ao lado dela quando ela abria-lhe a portinha de vidro e retirava lá de dentro uma chave muito estranha. Introduzia-a no corpo do relógio e rodava, rodava. Ela tinha o poder. E ele, garboso, matreiro, respondia com ardor, apontando as horas.
Não era o esperado mas talvez fosse o justo que ele descansasse agora.
Minha avó já se fora e bem antes dela o meu avô.
Alguns dos meus tios já descansavam e a minha infância já fora perdida.
Talvez ele sentisse que findara sua missão.
Como um quadro, deixei-o na parede, mudo, gozando enfim seu silêncio.

Vai ver ele precisava da quietude, do descompromisso das horas passarem sem ser ele a anunciá-las (ou denunciá-las).
Passando mais um tempo, em visita à nossa casa, meu irmão Daniel perguntou pelo relógio.
Contei que poderia ter chegado o seu fim.
Ele estranhou: "Mas ele não está quebrado, deveria estar funcionando bem".
Foi embora deixando-me a dúvida: por quê então este relógio recusa-se a soar as horas certas? Diante dele, questionei: "Sou eu ou é você?"
E era eu o tempo todo.
Resolvi fazer nova investida.
Tirei o pó, acertei as horas e dei-lhe corda. E, na manhã seguinte, novamente girei a chave, finalmente em meu poder. E, no outro dia, corda novamente. E assim, todo dia. E ele nunca mais falhou.
Ele precisava de atenção. Corda diária.
Assim, aprendi que temos que ter tempo até prá ver o tempo passar.
Que, se há desatenção, o tempo continuará a passar sem mágica alguma e no final não haverá uma boa surpresa. Perdermos o poder do nosso tempo.
Teremos, como cegos e surdos às necessidades do dia-a-dia, tocado a vida sem apreciar a alegria sutil do ponteiro dos minutos nem a escandalosa manifestação do ponteiro das horas.
Dessa forma, fizemos um trato, eu e ele: darei-lhe corda e atenção diariamente e ele não baterá suas horas em vão.

Um comentário:

Oma disse...

Estou a ver que vou aprender muito ao vir aqui!! Gostei da visita...se a quiser devolver eu estou em http://560pt.blogspot.com/ !!

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