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| Tia Zezé, meu vô Floriano e tia Lú |
Eram duas as tias-avós: Zezé e Lú, irmãs do meu vô Floriano.
Tantas foram as voltas da vida, em diferentes cidades e com diferentes fazeres. Mas um dia, quis o destino uní-las na velhice na mesma casa.
Moravam num grande sobrado de esquina com um pequeno jardim à frente.
Tia Zezé era viúva, tia Lú abandonada: o marido saiu para comprar qualquer coisa e nunca mais voltou.
Tia Lú havia morado em São Paulo onde se aposentou como professora. Quando ainda lecionava devia ganhar muito bem pois enchia a família do interior com presentes. Comprou o primeiro fogão a gás da minha vó Isabel.
Vestia os sobrinhos com o que havia de mais moderno na São Paulo dos anos 40/50.
Quando vinha ao interior visitá-los, trazia para as crianças uma "mala surpresa": era onde vinham os brinquedos!
Tinha um casaco de peles que, no inverno da velhice, só usava para ir à Caixa Econômica receber seu pagamento.
Tia Zezé fora casada com um militar e ambos jovens e belos protagonizaram histórias de ciúmes famosas na família. Mas, se amavam e ficaram juntos até a morte dele.
Idosa, começou a esquecer as coisas e passou a fugir de casa.
Certa feita, entrou no carro do bispo achando que era um táxi. O bispo, após o susto inicial, percebeu que se tratava de uma senhora doente e tratou de descobrir onde ela morava, devolvendo-a em segurança.
Era uma casa curiosa de se visitar: o assoalho rangia, a escada de madeira era escura e a cozinha triste. Ninguém cozinhava ali e toda comida vinha pronta de uma pensão.
No canto da pia jazia a marmita de 5 andares que era trocada quando chegava a marmita cheia de comida impessoal.
Os doces (claro que comprados prontos) eram guardados em latas.
A recordação que me ficou destas tias-avós me faz querer perfurmar a casa com mais bolos assando, com feijão cozinhando com louro e com uma pitada de esperança num futuro diferente.

