Quem sou eu

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Piracicaba, SP, Brazil
Sou casada, tenho um filho, amo viver, adoro trabalhos manuais, música, filmes, antiguidades etc.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Meus cinquenta anos



     Meu aniversário de cinquenta anos foi em fevereiro. Sem festa, a data parece não ter fim dentro de mim.
     Não fiz cinquenta anos de repente: essa ideia de ter cinquenta anos me vem caindo aos poucos, no decorrer dos dias e meses deste 2016.
     Parecia um aniversário qualquer mas, definitivamente algo mudou.
     Por um lado, me sinto promovida: cheguei a uma idade privilegiada. 
     Envelhecer, para mim, não é demérito; ao contrário, como antes fui um espermatozoide mais ágil, agora também atesto minha capacidade de sobreviver.
     E essa sobrevivência me faz querer mais da vida.
     Quero, por exemplo, lidar com o mínimo possível de aborrecimentos.
     Sinto-me obrigada a selecionar o quê e quem me faz bem.
     Parece que finalmente me sinto mortal, de verdade. Constato que já vivi bem mais do que tenho pela frente e que a qualquer hora tudo pode mudar, para melhor ou não.
     Portanto, esse hábito de postegar desejos pode ser em vão. É agora ou nunca prá muitas coisas.
     A parte gozada é que me sinto na adolescência da velhice! Mesmo!!!
     Então, aproveito para usar algumas coisas e cores, me sentindo mais colorida do que nunca.
     Importo-me com bem menos, chegando a ser difícil me tirar do sério. Às vezes, queria ser mais rígida, levar mais coisas a sério mas, se isso já era duro antes, agora virou esforço à toa.
     A casa não está tão limpa e em ordem mas é uma casa tão produtiva! Produzo refeições com afeto, costuras, mimos, brincadeiras com a Mafalda, doces diet para o marido, que volta e mexe reclama da bagunça.
     Gente, é uma baguncinha tão feliz, que nem deveria ser chamada de bagunça. Teria que se inventar uma outra palavra para descrevê-la: talvez bacrita (bagunça criativa), baliz (bagunça feliz).   Ou então, em vez de uma palavra, uma abreviação: COPAEMLU (Coisas Passeando em Outro Lugar). O que deveria estar na cozinha, veio passear na sala; a colcha de retalhos da cama, veio à lazer para o sofá, ver TV conosco. Nada muito grave ou vergonhoso.
     Por fim, constato que me sinto absolutamente confortável e feliz comigo mesma. Sei das minhas falhas mas antes, sei dos meus esforços, da minha boa vontade, da minha própria história que me fez ser a cinquentona que hoje toma conta da menina que ainda mora aqui.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A moça, o bebê e o banquinho de piano

Arranjo feito com poda de jardineiro que me deixou recolher
o que ia para o lixo


     Naquela tarde, uma vez  mais, cheguei em casa carregada de sacolas. Talvez se eu fosse um polvo desse conta das muitas coisas que tenho carregado nessa vida. Mas não sou e nessa encarnação creio que nunca serei.
     Mas cheguei ao prédio e me coloquei a descarregar tudo aquilo que trazia.
     E no hall, me observando, uma moça de longos cabelos negros. No colo, a simpatia em forma de bebê: um  menino dos seus sete meses, sorridente apesar da chupeta que equilibrava na boca. Ao lado, um banquinho de piano.
     Como o dia tinha sido de calor absurdo, creio que a jovem mãe levou a criança apenas de fralda descartável.
     No entanto, e como é bem comum nesses dias calorentos, o fim da tarde trouxe chuva e um vento gelado.
  Tentando proteger o bebê, a mãe lhe amarrou às costas uma fralda de tecido (provavelmente a fralda de boca).
     Dessa forma, ele parecia um super bebê com essa capa de fralda.
     Ao lado, quieto como lhe convinha, o banquinho de piano esperava.
   Quando chego ao meu andar, me deparo com cerca de cinco homens e um piano barrando a porta do elevador.
    Ora, o piano claramente não cabia no elevador e estudavam agora sua descida pelas escadas.
      Todos estavam excitados e suados pela missão.
     A moça lá embaixo. O super bebê ao colo. O banquinho impaciente. O piano aqui em cima, deixando seu lar de muitos, mas muito anos mesmo.
    A pianista morrera há tempos e seu silêncio gritava pelo apartamento. O banquinho vazio, as teclas inertes, a quietude atordoante.
      Agora a moça o teria e o super bebê poderia ouvi-la tocar.
     Esse mesmo piano também tinha embalado outro bebê, agora um homem de cerca de cinquenta anos que acompanhava a confusão criada porque decidira se desfazer do piano.
     E sua falecida mãe também havia sido, um dia, uma moça pianista, como a moça que esperava no hall.
      E também se excitara com a chegada desse mesmíssimo instrumento.
     Por isso, eu chego carregada de sacolas, suada e alegre por ter uma moça, um bebê e um banquinho de piano no hall, me observando nessa encarnação onde só tenho duas mãos.




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Magia

    
Flores colhidas pela rua num vaso querido presenteado pela minha mãe


     Meus olhos foram se esgarçando com o uso.
     Com o tempo, vieram nuvens suaves que, ao se instalarem, viraram cinzentos obstáculos.
   Se antes, o brilho da juventude refletia dos meus olhos para fora intensa luz, agora um fraco farolete me conduz.
     E, tento tateando, ver o que eu via, ouvir o que me encantava, sentir o que eu sentia...
     Mas, pobre condutora de mim mesma, sigo às cegas por um caminho tão óbvio quanto inesperado: envelheço.
     E, se as sensações já não são as  mesmas, que dizer dos meus olhos? Onde está toda a magia que a vida me prometia?
     Viro ansiosa e tenho claro: a magia me desperta toda manhã com o cheiro do café que meu amor prepara.
     Ouço claramente a magia no girar das chaves quando meu filho, meu amado filho, chega são e salvo nas madrugadas.
     Percebo algo realmente mágico acontecendo quando as flores do jardim se abrem e pássaros de toda sorte vêem passear entre elas.
     Há um encantamento misterioso no som das patinhas da Mafalda correndo para me encontrar. A cada lambida sinto: algo mágico me toca e aquece.
     Sob os lençóis, quando a noite escorre lá fora, toco enlevada com  meus pés os pés queridos que dormem ao meu lado.
     Percebo então que, agora enxergo melhor que nunca.
     

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Os lençóis das minhas avós

     
Arranjos que fiz recolhendo plantas ou matos na rua



     Uma das coisas que mais me faz lembrar meus tempos de criança são alguns cheiros.
     Quando eu dormia na casa de qualquer uma das minhas avós, lembro perfeitamente do cheiro da roupa de cama. Não era um cheiro de sabão, muito menos de amaciante ou perfume. Era um cheiro indecifrável e muito agradável.
     Cheiro de roupa limpa guardada nos armários das avós. Cheiro de roupa de cama que embalava e descansava nosso corpo cansado das brincadeiras. Cheiro da vó por perto.
     Minha avó Isabel era viúva, então quando “pousava” lá, dividíamos a cama dela de casal. E adormecíamos de mãos dadas.
     Os colchões da casa dela eram de capim seco, o que provocava barulhinhos a cada virada na cama. Mas isso não abalava em nada meu sono; tenho até saudades desses estalos. Saudades também de ouvi-la rezando o terço diário: ela murmurando as orações, que nem eram feitas em voz alta nem em sussurros. Eram mesmo uma espécie de mantra murmurado.
    Já minha outra avó, a Ermelinda (adoro esse nome!), tinha meu vô Mário. Então, quando algum dos netos dormia por lá, ocupávamos o quarto que tinha sido do meu tio Sérgio, um cara barbudo que mudou para São Paulo nos deixando meio “órfãos” de tio.  Mas, cada visita sua nos trazia um pouco da cidade grande, um pouco das novidades que vinham em suas roupas, seus sapatos, seu jeito de falar e de ver a vida.
    Embora não fosse a cama da vó, os lençóis tinham o mesmo cheiro gostoso, aquele perfume das coisas verdadeiras, dos afetos genuínos, do bem querer e do bem-estar.
     E era gostoso acordar de manhã e estar num lugar diferente da nossa casa, do nosso quarto.

     Estávamos num lugar seguro, cheio de amor e que nos assegurava um sentimento grande de família. Coisa não tão fácil de achar, naqueles tempos...



Obs.: Andei meio afastada do blog por conta de uma paixão recente: o Instagram.
À todas as boas amigas que por aqui passarem, convido a "frequentar"  meu insta: @dandolinhas. Será muito gostoso também poder frequentá-las. E, se por acaso alguma ainda não tem, recomendo viva e entusiasticamente. É a nossa cara!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Um pouco mais de doçura, por favor

   
  
  Outro dia, fui a um antigo depósito de doces que existe há muitos anos aqui, em Piracicaba. E fazia também muitos anos que por aquelas bandas não ia.  Tanto tempo havia se passado que fiquei na dúvida se o depósito ainda existia.
   Dirigindo a caminho, grande saudosismo me atacou: por que deixei de frequentá-lo? Por que não percorri mais vezes seus corredores mal iluminados, não estimulei mais suas vendas? Se é que havia fechado, a culpa, além de minha, era de gente como eu que com o tempo foi abandonando  pequenos comércios familiares e se debandou para os grandes supermercados. Minha culpa!
   Conforme fui chegando à rua do dito depósito, mais e mais pesado ficava meu coração. E dei de romancear minhas lembranças: o bom velhinho que ficava no caixa, seu filho jovem e prestativo ao lado; o colorido dos doces e suas embalagens alegrando o depósito e minha gula.
   Relembrei de algumas festas abastecidas lá, quando meu filho era apenas uma criança. Que tempo bom!
   Quando dei por mim, estava em frente ao estabelecimento e, para minha surpresa, ele ainda existia!
   Sim, o velho e bom depósito de doces estava ali, de portas abertas e braços açucarados prontos para me abraçar.
   Entrei feliz com essa volta ao tempo, e senti mesmo que tudo em minha volta congelava.
  De pronto reconheci o filho do velhinho, já ele mesmo quase idoso.  Empolgada lancei meu mais alegre "boa tarde". Ele, de óculos na ponta do nariz, só esboçou um cumprimento mudo,  muito mal humorado.
   A iluminação continuava ruim, como antes. As prateleiras estavam apenas parcialmente ocupadas: grandes lacunas denunciavam uma grande venda ou uma grande falta.
   Ele continuou contando moedas, cabisbaixo e sem nenhuma vontade de ser simpático.
  Percorri triste aqueles corredores e juro que queria fazer uma grande compra mas, desanimada, abracei um pacote de paçoquinhas, paguei e fui embora.
   O velhinho não existia mais, o filho era antipático e ranzinza, os doces já não eram os mesmos.
   Fiquei pensando que faz mesmo sentido as coisas passarem de uma vez, embora isso traga saudades e às vezes melancolia.
   E analisando mais ainda, vi que a Rebeca que percorria aqueles corredores também não era mais a mesma: os anos passaram para mim também e a moça que por lá ia, hoje é uma senhora em busca de um tempo que não volta mais, para o bem e para o mal. Então, está tudo certo e que bom que a via é exatamente como é.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Rebeca, a herdeira







  O que eu, de família absolutamente normal, nem mais nem menos, poderia ter de herdeira de joalheria?
  Anéis e correntes de ouro, pedras preciosas, relógios valiosos?
  Nada disso. A parte que me coube foi a grade que ilustra esta postagem e fazia parte dos adornos do antigo prédio da Gatti, tradicional relojoaria e joalheira da minha cidade.
 Quando esse prédio foi demolido, para mim foi uma triste surpresa. E ali, parada, observando os pedreiros executarem impiedoso trabalho, colocando abaixo parte da história piracicabana, tive a ideia de levar uma "pequena" recordação.
 Uma das grades que enfeitavam as portas, repousava no chão, triste e menosprezada, empoeirada e quieta, à espera do caminhão do ferro velho. As outras já tinham partido, apenas essa não coube na carroceria e ficou ali, sozinha.
 Pedi aos pedreiros que me cedessem a grade. "Você quer essa grade???" "Queeeeero!!!" "Pode levar, moça".
 E cadê que eu consegui carregar a grade sozinha? Corri ao meu trabalho a poucas quadras dali e convenci dois amigos a me ajudarem.
 Voltamos à demolição, de onde saímos os três carregando a grade por uma das ruas mais movimentadas da cidade.
 Claro que as pessoas nos olhavam, tentando interpretar a situação.
 Hoje, a grade enfeita meu escritório. Linda, simpática e muito querida, fez de mim uma inesperada e imprevisível herdeira.
 Quem disse que eu não chegava lá? (onde quer que seja esse lá...)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Gustão, o enlouquecido



Augusto. Gustão.
Tem a pele muito branca, os olhos muito azuis.
A barba por fazer, o casaco surrado e um andar decidido. Parece mesmo saber por onde vai,  mas não sabe. Gustão enlouqueceu.
Antes, bem antes, era um jovem boa praça, bonito e disputado pelas mulheres.
Gustão era esportista, jogava bola e tinha muitos amigos.
E era, como eu, funcionário público.
A vida lhe corria tranquila e o destino parecia lhe acenar com metas já definidas: um dia, se casaria com uma das mulheres que ele mesmo poderia escolher, teria filhos e quem sabe um cão. Ou um passarinho, ou um bicho qualquer.
Uma casa para onde voltar todos os dias após o expediente, uma mulher para acariciar e amar.
Uma janta para jantar, um lar para sustentar. Uma parede para furar, uns quadros para pendurar, um quintal para varrer. Uma família para chamar de sua.
E nessa altura da vida, onde éramos todos jovens e cheios de planos, houve um intervalo.
Anos sem nos vermos, sem nos encontrarmos. Apesar de trabalharmos na mesma Prefeitura, são muitos prédios e muitas distâncias a separar os funcionários.
Um dia, Gustão reaparece mudado. Magro demais, barbudo demais, etéreo demais.
A cabeça parecendo uma nuvem, inalcançável.
As frases são curtas. Pede um cigarro e vai-se embora. Mas deu de voltar sempre, quase que diariamente, pedindo sempre mais cigarros.
Entendemos tudo: Gustão enlouqueceu. Perdeu a noção, surtou.
Conserva algumas recordações: jogava bola com o Fernando, nosso amigo.
Mora com a Gracinha, sua irmã. Tem que voltar para casa ao meio-dia. 
Toma remédios. Fuma. Gosta de sentar na praça.
E bebe o café que lhe oferecemos como se fosse o último do mundo: o líquido precioso acabou e lhe ofereceram o último gole. Segura o copo plástico com as duas mãos, bebe devagar e concentrado.
E quando acaba, vira as costas e parte. Como se soubesse para onde vai, como se tivesse uma mulher a lhe esperar, uma casa para arrumar, uns quadros para pendurar.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Primeiras impressões sobre ter um cachorro



1) Faz cocô
2) Faz xixi

Na minha ânsia por um cachorro, essas duas questões foram completamente esquecidas, ou melhor, reduzidas a um mínimo detalhe eventual. Mas não são, claro!!! Eles defecam e urinam como qualquer ser, obviamente com regularidade e frequência.
Não posso alegar ignorância, já tive um cachorro, mas há dez anos atrás. E nessa época sempre morei em casas com quintais.
Agora, Mafalda mora conosco num apartamento. Mas fora esses dois detalhes enumerados, a experiência tem sido bem positiva.
Apesar de muito pequena (2 meses), ela já é uma boa companhia. É alegre e festeira, dengosa e brincalhona.
Quando acordo, busco por ela para o meu já habitual "Bom dia, princesa!". E ela retribui saracoteando, abanando o rabinho e quase posso jurar, sorrindo!
E lhe faço promessas descabidas: juntas, arrumaremos meus sapatos e lhe emprestarei um sapato digno de princesa (para desfilar por aí, não morder!) 
Elegeremos as roupas mais charmosa; ela me sugerirá combinações mais modernas e alegres, e por fim, num dia bem inspirado, iremos juntas às compras.
É, me fazia mesmo muita falta uma companheira feminina...
À noite, nossa família se reúne na sala e brincamos com ela ou, entre as conversas, simplesmente olhamos para ela dormindo.
E até o filho, tão entocado em seu quarto, sai para mostrar novidades que ele e Mafalda desenvolveram.
E chego a pensar que o cocô e o xixi são mesmo meros detalhes que podem ser administrados em nome de uma convivência que pode ser muito divertida e amorosa.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Porque o sol bate na minha mesa de trabalho

Foto: Pinterest


   Como deixar de tomar este sol delicioso que bate em minha mesa? "Faz favor de entrar", penso eu. Tenho obrigação de absorvê-lo.
   É outono e procuro o sol como uma planta; no verão, fujo dele a todo custo.
   Ao sol, percebo meus dedos como nunca: as unhas roídas, a leve penugem que me recobre as mãos.
   Tudo brilha e resplandece.
   O ar é frio e leve e o céu está de um azul magnífico.
   A vida corre lá fora nas rodas dos carros contra o asfalto duro e cinza.
   Mas é outono e é de manhã e isso me faz feliz. Por hoje me basta.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Anos 80, a década que nunca passou




Os anos 80 foram os anos da minha adolescência. Nunca passaram.
Voltam a mim quando ouço algumas músicas, vejo uma ombreira, uma cor cítrica, uma mini-saia jeans. Porque eu tinha uma, minha amigas, que era demais! Demais de curta, demais de ousada, demais de bacana.  Sabe a roupa certeira, aquela que te dá toda a confiança do mundo? Era a minha mini-saia... 
E quando eu queria caprichar mais na produção, botava umas polainas em tons de azul que minha vó Ermelinda tinha tricotado prá mim. Ficava o máximo!
E partíamos, seguras, eu e minha mini-saia. Amiga de toda hora, ela ia à escola noturna, às compras, aos passeios.
Era toda abotoada na frente, meio evasê. Uma graça.
E seria injusto não citar um certo macacão branco, estilo jardineira, todo de algodão que eu também usava muito. 
A produção era a seguinte: por baixo do macacão eu colocava duas blusinhas, uma verde-limão e outra laranja. Uma deixava um ombro caído e a outra deixava o outro, eu juntava as duas e punha o macacão por cima. Pensam que acabou? Nãããão! Ainda colocava três pulseiras largas no braço: uma branca, uma verde-limão e a outra, laranja, claro. E saia "abafando", como dizíamos à época.
Foi uma década de muitas descobertas, encontros e desencontros. Muito mais encontros, felizmente.
Encontrei meu amorzão, me descobri como a fonte das minhas alegrias e infelicidades, tracei um destino.
E segui uma rota não estabelecida mas guiada pela minha vontade de melhorar de vida, de ser mais feliz, de ter paz. E, pouco a pouco, trabalhando muito, consegui. Hoje, me vejo inteira e tranquila mas, sem esquecer da garota de mini-saia dos anos 80, que ainda mora aqui dentro.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia sem remendos




Emendo retalhos
até formar um caminho
pelo qual corro, 
descalça e descabelada,
desalinhada e desmemoriada.
Berro mas as voz não me sai,
grito mas ninguém me ouve.
Bordo um pedido de socorro,
mas a linha é tão fina e a
agulha tão grossa
que só aparecem os buracos
da minha alma,
tecido roto e rasgado.
Tento sorrir, dizer prá mim mesma
que o armário está a explodir
de tecidos novos,
coloridos e perfumados,
mas tudo que vejo
são os trapos tristes
que penso jamais saberei emendar...


(porque nem todo dia é "O" dia...)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ter um blog





O engraçado de se ter um blog é que as amizades começam ao contrário das outras relações.
Através de um blog você conhece primeiro o interior da pessoa. Você vai descobrindo seus gostos, suas habilidades e um pouco do que vai em sua alma.
Alguns se sentem mais a vontade para abrir seu coração, outros são mais comedidos.
Mas, que a relação começa de dentro prá fora, isso começa. E, sob alguns aspectos, isso é ótimo!
Às vezes, temos uma primeira impressão errada quando conhecemos alguém pessoalmente. E logo rotulamos: perua, chata, sem-graça, workaholic, desleixada, metida.
Isso tudo sem conhecer o que vai por dentro, seja uma grande tricoteira ou uma amiga em potencial.
A primeira impressão pode nos desanimar, ou nos deixar em dúvida mas, se tem uma coisa que venho aprendendo com os anos é o quanto é interessante conhecer gente.
E que podemos nos enganar num primeiro momento.
Sinto também que a maioria das pessoas é muito parecida: todos temos os mesmos medos, as mesmas alegrias bobas, nossos desejos, nossos frios na barriga.
E não somos perfeitos. Ninguém é. Como podemos então exigir perfeição de alguém? Se nem na minha costura, fonte de prazer e lazer, eu quero ser perfeita, por que raios vou exigir isso de alguém?
Enfim, é um barato conhecer alguém novo e ir lhe "descascando" as camadas, lhe conhecendo por inteiro para descobrir que bem lá embaixo do seu peito bate um coração bem parecido com o da gente. E um ótimo atalho é ter um blog. Eu recomendo!!!!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Férias


   De repente, nem é preciso mais ter pressa.
   Acordo quando tenho que acordar, quando o corpo pede que me levante. E se são 10 horas da manhã, que me importa? Poderia até ser mais, estou de férias.
   Vou consumindo meu tempo aos poucos, saboreando as horas, deliciando-me com os não fazeres, as não obrigações.
   Dou-me ao luxo de andar com o mais fino calçado: um bom par de Havaianas. Isso, quando os calço:  prefiro não usar nada, andar descalça.
   Costuro sem compromisso. Se erro, desmancho a costura devagar, como se pudesse corrigir todos os erros nesse lento desfazer. Refaço, acerto, conserto. 
   Pequenas alegrias, grande descanso.
   Pulo da cama para o sofá, levanto as pernas, espreguiço. Desvio do sol, abraço almofadas. 
   Faço um doce, raspo a panela. Espio uma nuvem, uma criança que passa lá embaixo do meu prédio.
   Há uma briga de um cão com um gato, bem sobre a minha janela. Os dois são negros e o gato não tem medo algum: não arreda pé, nem mesmo quando a dona do cão, que está em grande desvantagem, preso pela correia, tenta espantá-lo.  O gato é valente e atrevido. E eu tenho tempo de reparar em tudo isso!
   De tão feliz  e com tanto tempo. logo vou caçar formigas no jardim, junto com o Gui, meu vizinho de três anos...

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

De blogueira para blogueiras: FELIZ NATAL!!!




Antes do já anunciado voto de Feliz Natal,  gostaria de agradecer a cada um de vocês que por aqui passou.
Agradecer pelos comentários, pela visitinha, pela dica, pelo toque.
Agradecer por me fazerem sentir que não estou sozinha e muito menos, falando com as paredes.
Agradecer por ter encontrado gente como eu, uns mais outros menos parecidos, mas todos com vontade de interagir, de dizer um "alô", de incentivar.
Ter um blog me fez uma pessoa mais feliz. Organizou minhas ideias, minhas costuras. Me fez ter mais objetivos, mais planos. 
E conheci tanta gente legal! Aprendi tanto...
Resolvi ilustrar meu post de "Feliz Natal" com duas fotos que fiz que ilustram muito do que sou.
Penso que para celebrar qualquer coisa, é preciso que a festa comece DENTRO de você. Dessa forma, nada poderá deter sua resolução de ser feliz. De enfeitar sua porta. De acender sua luz. De iluminar sua própria vida.
Assim, desejo a todos vocês meus mais sinceros votos de um FELIZ NATAL!!!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ana Francisca: uma vida entre livros



Ana Francisca gostava de ler. Talvez seja demasiado simples enclausurar seu gosto nesta afirmação: gostava de ler. Ana Francisca vivia para ler.
Os afazeres da casa eram colocados em segundo plano: o que lhe importava mesmo era a vida vivida entre as páginas impressas.
O almoço podia esperar, o fim da história não.
O marido, sujeito calmo e compreensivo, tentava lhe facilitar a vida. Apesar de trabalhar na Sorocabana (que depois seria a FEPASA), ainda chegava a tempo de adiantar o jantar.
Ana Francisca reencostada em sua poltrona, olhos fixos no livro e Batista, o marido, lavando o arroz, pondo o feijão a cozinhar, cortando a cebola.
Entre uma folha e outra do alface observava a mulher quieta, toda concentração voltada ao livro.
Por fim, lentamente ela fechava o volume e voltava à vida real, ao jantar real, à família real.
O marido não era de queixumes: nada disso afetava o amor que sentia pela esposa leitora.
Ferroviário, era mais de fazer do que de ler. Apesar disso, frequentava a Biblioteca da Sorocabana, onde ia retirar livros para a mulher. Assim, eram três livros em trânsito: ele emprestava três livros e quando os devolvia, na verdade só os trocava; levava de volta outros três.
E de três em três, Ana Francisca leu a Biblioteca inteira! Não imagino o tamanho da biblioteca em questão, mas deviam ser muitos livros. Tantos, que resolveram prestar homenagem "ao seu mais devotado leitor", o Batista! Sim, o sócio da biblioteca era o marido e como tal, era em seu nome que os livros eram retirados. Conclusão óbvia para os funcionários da biblioteca, tratavasse de um grande leitor. Ledo engano!
E como esclarecer tal mal entendido sem constrangê-lo? Sem revelar que ele não tinha lido uma linha sequer dos muitos livros que retirara?
Foi marcada até uma solenidade para que Batista, o marido que não lia, recebesse uma honraria como o "grande leitor", o exemplo a ser seguido pelos colegas.
Alegando mal-estar (que não era de todo mentira!) escapou-se dessa.
Em outra ocasião, Ana Francisca meteu-se num concurso de contos da famosa marca de produtos higiênicos para senhoras, a Palmolive. Sim, Ana Francisca também gostava de escrever.
O tema: Saudades. Não se sabe o que levavam as linhas que ela traçou, mas acabou vencendo o concurso. Teria portanto, direito a que o prêmio lhe fosse entregue.
Certo dia, uma carro de luxo chega ao seu portão.
Atende uma Ana Francisca desalinhada pela lida doméstica, que bem naquele dia lhe calhou executar.
"- Por favor, Dona Ana Francisca está?"
"- Ah, sou eu mesma!"
Houve um príncipio de dúvida: poderia aquela mulher que ali se apresentava ser a senhora escritora? Sim, era ela mesma.
O prêmio, uma grande caixa de madeira pintada de azul-marinho, cheia de produtos, foi recebido mas, antes que ela pudesse desfrutá-lo (e por razões enigmáticas) ainda ficou exposto por dias na vitrine da melhor relojoaria da cidade.
Uma prima, em certa feita, viu-se em apuros: tinha que deixar um pequeno verso no caderno de lembranças de uma amiga e nada lhe ocorria. E Maysa, a amiga, lhe cobrava a recordação.
Ana Francisca foi em seu socorro e rabiscou o seguinte:
"Culpa tiveste tu, Maysa,
por quereres meu pobre verso aqui.
Mas pouco importa:
numa roseira, entre lindas folhas verdes
é natural haver alguma folha morta".
Quando Ana Francisca partiu, já entrada em anos, deixou em todos a sensação de um livro muito emocionante do qual nunca pudemos ler o final.
Em sua sepultura, os filhos lhe fizeram uma última homenagem: a escultura de um livro com as páginas entre abertas, como a lhe fazer companhia na derradeira aventura.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A primeira carta anônima que enviei



Prezada senhora:

                    sua linda casa fica na minha rota de trabalho e por aqui passo diariamente. Sou uma admiradora de casas antigas e a sua me parece tão bem cuidada quanto suas orquídeas.
                    Quanto zelo! Tem em mim uma admiradora do seu “dedo verde”.
                  Caso não seja a senhora quem cuida das plantas, far-me-ia o favor de cumprimentar quem o faz? No caso de ser a senhora mesma, já percebe aqui minha alegria em vê-las cuidadas com tanto carinho.
                   Essa admiração me fez tomar um gesto atrevido: trago-lhe aqui duas orquídeas que para mim estão em fase terminal.
                  Moro num apartamento e nele não há local propício para que se desenvolvam (ou fui eu mesma que não soube cuidar delas adequadamente).
                 Cheia de vontade de recuperá-las mas sem saber como, decidi trazê-las para serem adotadas por quem pode lhes dar o melhor tratamento.
                Se o gesto lhe causar irritação, por favor, me perdoe. Mas, tenho que lembrar que há casos bem piores: bebês são abandonados em portas estranhas, gatinhos e cachorros também.
                As plantas que lhe trago nem podem ser comparadas a tais atos, a não ser por serem também um caso de adoção.
               Sei que os anônimos são covardes e não nego. Não soube tratar bem destas plantas, fui completamente incompetente e recorro a esta covardia: deixo-as aqui  junto com um bilhete anônimo.
               Prefiro isso à morte (das plantas, claro!).
               E para que não fique totalmente anônima, assino como R, a fã das suas orquídeas.
              Bom dia!!!!
     R.
(a  primeira carta anônima a gente nunca esquece...)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Meus mortos

  
Minha bisavó e minha tataravó


  Não é para ser um post lúgubre, nem que traga qualquer tipo de tristeza ou lamúria. É fato.
  Meus mortos me acompanham e não há nada de errado nisso.
  Quando começa a anoitecer, vou acendendo as luzes da casa e pensando: "detesto casa escura!". Repito a Aracy, tia-avó do meu marido, falecida há 2 anos. Foi a pessoa que conheci que mais temia a morte: uma simples febrezinha a deixava em pânico.
  Minha vó Ermelinda, cozinheira e doceira de mão cheia, viu-se, por ironia do destino, diabética. E um dia foi pega com balas de café escondidas na toalha de banho. E eu, por qual razão, escondo gostosuras pela cozinha? Será que penso enganar a balança? Se ela não ver não engordo? Seus ponteiros não poderão me acusar? Afinal, nem diabética eu sou...
  Minha vó Isabel morou numa fazenda boa parte de sua vida e tinha covas nos joelhos causadas pela queda de uma cerca. Por que as covas nos meus joelhos estão ficando iguais às dela?
  Não esqueço as dores de amor da minha tia Paula, morta aos 36 anos. Dizem que foi câncer, penso que foi um amor não correspondido que lhe trouxe a enfermidade.
  Meu tio João trazia nos olhos e na voz grave toda a rispidez que uma grande infelicidade interna pode causar. Infeliz consigo, não conseguia fazer feliz quem amava.
  A tia Piléria tinha horror às tempestades. Fugia delas se escondendo dentro do guarda-roupas.
  Meu vô Mário era muito ativo e cheio de boas ideias. Adorava "bater perna", como dizia a vó Ermelinda, sua esposa. Terminou esquecendo como voltar para casa.
  Tia Mavilde foi uma das donas de casa mais caprichosas que conheci: até sua vassoura tinha capa de crochê!
  Tia Domitila era professora de inglês e apesar de casada, ia ao cinema sozinha nos anos 60. Ora, ela queria ver o filme, o marido não, ela ia só. E estava tudo certo, como deveria ser.
  Todas essas cenas e muitas outras refletem em mim, fazendo com que eu seja quem sou.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Uma senhora muito elegante

  


   Um dos meus passatempos preferidos é observar. E observar de tudo: o formato das nuvens, as casas antigas, o torneado dos móveis.
   As árvores, se tem vento, se tem janela aberta prá eu espiar.
   Mas o que me dá prazer mesmo é observar pessoas, ver o que há de comum e de diferente.
   Pois bem, estamos sexta-feira passada, meu marido e eu, em um dos nossos bares preferidos. Na mesa ao lado, meu alvo da vez, uma senhora.
   Bonita, bem penteada, maquiada levemente, vestida com extremo bom gosto.
   Tem gestos tão delicados! Noto o capricho com que saboreia a porção de Lula à Dorê: coloca UM anel de lula no prato e, com garfo e faca, corta em 4 pedacinhos e vai levando-os à boca, calmamente, um a um. Só então, e mais tarde, serve-se de outro anel de lula. Beberica a cerveja.
   Tristemente penso que jamais serei fina daquele jeito! Os gestos serenos, o comer devagarzinho como se comida nem lhe fizesse muita falta.
   A mim, a comida me apetece muito, me dá prazer, sensações. Não me contenho diante de um prato saboroso: quero apreciá-lo logo.
   Já conformada com as nossas grandes e aparentemente intransponíveis diferenças, reparo que entra no bar uma cantora e seu companheiro de violão.
   E tudo fica melhor com música! A MPB faz nossa noite deliciosa e refresca minha mente atormentada.
   Quando começam a tocar sambas, redescubro a senhora fina na mesa ao lado. De braços erguidos, entoa um "você abusou, tirou partido de mim, abusou...".
   Não sei se foi o samba que esquentou ou a cerveja que subiu, mas uma nova mulher surgiu.
   E dá-lhe Paulinho da Viola, Clara Nunes, Benito de Paula.
   Vejo-a cantar juras de amor para o garçom, jovem e meio constrangido.
   Meu marido faz previsões macabras "daqui a pouco ela sobe na mesa!".
   Prá finalizar, chega o último pedido dela: uma grande, gorda e aparentemente deliciosa panqueca, devorada em minutos.
   Saímos do bar antes dela mas, lá de fora ainda ouvíamos aquela senhora fina, elegante e agora feliz, acompanhar um Martinho da Vila.
 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Porta-travesseiros: linho e apliqué








     O que faz de uma casa um lar? Não basta ter paredes, portas, janelas.
     Não é um punhado de tijolos, cimento e madeira que transforma qualquer habitação numa casa com "C" maiúsculo.
     Primeiro, há de se ter o interesse de preencher aqueles ambientes com algo mais que móveis e eletrodomésticos.
     É preciso entender suas necessidades e rotinas, porque uma casa pede para ser administrada como uma empresa cujo único lucro é o bem estar dos moradores.
     Não é um lugar para se falar alto, para exigências incabíveis, para coisas feias: mesmo com muito pouco se pode fazer transformações, basta boa vontade.
     Gritos, só de alegria: "ganhei na loteria!".
     Há que se vestir uma casa: lençóis com estampas delicadas e alegres, toalhas macias, jogos americanos plástificados (desculpe, eu detesto lavar toalhas de  mesa!). Tudo simples. Tudo limpo. Tudo cheiroso.
     A cozinha deve saciar a fome e alimentar o espírito: nada complicado, tudo feito com amor.
     Por fim, uma casa se constrói antes no coração...
 
(Ah, ia esquecendo: fiz este porta-travesseiro com apliqué no linho e a casinha com chaminé me levou a filosofar tudo isso. Adoro casinhas!!!)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Estranhamento

    

     Há um tempo atrás, assisti à uma missa no Convento das Carmelitas. Quem celebrou a missa foi nosso bispo e durante seu sermão ele disse algo sobre o qual fiquei pensando: "... é preciso se estranhar as coisas...".
     E fico pensando em quantas coisas vou vivendo sem estranhar, sem reparar, sem refletir.
     Talvez se tivesse mais atenção mudasse algo, aprendesse mais alguma coisa, fizesse a diferença prá mais gente.
     Acontece que o dia a dia corrido é uma máquina esmagadora das reflexões, dos momentos em que se para apenas para pensar.
     Tem momentos que me sinto meio em transe e até meio sonolenta nas coisas rotineiras. É como se eu não estivesse ali, não sentisse na carne o que está rolando.
     E me dá um medo danado de acordar tarde demais.
     Hoje, por exemplo, vi duas mulheres e uma garotinha andando.
     Só a criança reparou no homem que dormia na calçada por onde elas passavam. As duas mulheres nem voltaram suas cabeças, nem estranharam.
     E, Deus do céu, desde quando é normal alguém dormir na calçada??? Quando foi que a gente se acostumou com essa e outras barbaridades???
     Eu gostaria de estranhar mais, de protestar, de fazer algo.
     Mas, sigo embaraçada e constrangida com a sensação de impotência, de correria, de não ter tempo e, principalmente, de medo.

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